Curso de Preparação
Formação humana integral é superar uma fragmentação
6 de setembro de 2026 · Paulo César
Peça para duas pessoas explicarem o que é educação integral e você provavelmente vai receber duas respostas incompatíveis. Uma vai falar de escola em tempo integral, com o aluno na instituição das sete às cinco. A outra vai falar de formar o ser humano por inteiro, em todas as suas dimensões.
As duas usam a mesma expressão. Nenhuma das duas está mentindo. E é exatamente aí que mora o problema.
Vou adiantar a resposta, porque é ela que a banca do ENA cobra: formação humana integral, segundo Marise Ramos (2014), é a superação da fragmentação produzida pela divisão social do trabalho, garantindo a todos os trabalhadores o direito de compreender o mundo em sua totalidade e de atuar como cidadãos plenos e conscientes. Não é escola em tempo integral. Não é grade cheia de disciplinas. Se você está se preparando para o Exame Nacional de Acesso ao ProfEPT, essa definição precisa estar clara antes de qualquer outra coisa.
Marise Ramos abre o capítulo 4 do livro História e Política da Educação Profissional apontando o problema da polissemia: existem conceitos que circulam no nosso vocabulário carregando muitos sentidos ao mesmo tempo. Quando a gente usa esses conceitos sem questionar a origem deles, sem examinar o significado e sem perceber as apropriações ideológicas que eles carregam, a discussão inteira fica comprometida.
Esse capítulo é uma das leituras da bibliografia que mais compensa fazer devagar. Não porque seja difícil, mas porque ela organiza conceitos que você vai usar do início ao fim da sua pesquisa. Neste texto eu quero desenvolver um deles.
O problema que a formação humana integral responde: a divisão social do trabalho
Antes de definir o conceito, é preciso entender o problema que ele responde. Sem isso, qualquer definição vira frase bonita para decorar.
Marise Ramos parte da divisão social do trabalho. E ela é direta ao descrever o que essa divisão fez: separou o ato de pensar, de dirigir e de planejar de uma outra categoria, que é o trabalho manual, o trabalho prático.
De um lado, quem concebe. Do outro, quem executa.
Essa separação não fica confinada ao chão de fábrica. Ela atravessa a escola, atravessa o currículo, atravessa a forma como decidimos o que cada grupo social precisa aprender. O resultado é o que a autora chama de fragmentação estrutural na formação dos trabalhadores.
Fragmentação estrutural quer dizer que o problema não está numa disciplina mal dada nem num professor desmotivado. Está na estrutura. A formação já nasce partida.
Por que a divisão entre pensar e executar foi produzida, não é natural
Aqui entra um ponto que muda a discussão inteira, e que a prova costuma cobrar de forma indireta.
A divisão social do trabalho existe, mas ela foi produzida. Ela tem data, tem história, tem interesses por trás. O ser humano, na sua essência, no seu surgimento, não é dividido socialmente dessa maneira.
Homens e mulheres são seres históricos e sociais que produzem conhecimento ao transformar a realidade concreta para satisfazer as próprias necessidades. À medida que eu interajo com a natureza para me manter vivo, eu vou aprendendo. Aprendo como se faz uma fogueira, como se lida com a água, como se lida com um animal, com os frutos. O conhecimento não chega pronto até mim. Ele é produzido nesse processo.
Se a divisão foi produzida historicamente, então ela pode ser superada historicamente. É essa possibilidade que sustenta a defesa de uma formação humana integral. Um conceito que descrevesse algo natural não teria projeto político nenhum por trás.
O que é formação humana integral segundo Marise Ramos
Responder que é a formação do humano na sua integridade, na sua completude, é verdade, mas é uma resposta que não leva ninguém a lugar algum. Fica superficial demais.
A definição que funciona é aquela construída a partir do problema.
Formação humana integral é a superação da fragmentação que a divisão social do trabalho produziu. É garantir que todos os trabalhadores tenham o direito de compreender o mundo em sua totalidade e de atuar como cidadãos plenos e conscientes.
Repare em duas palavras dessa formulação, porque elas carregam peso.
A primeira é direito. Não é oportunidade, não é benefício, não é diferencial competitivo. É direito. Isso desloca a discussão do campo da meritocracia para o campo da justiça social.
A segunda é totalidade. A realidade não é fixa nem fragmentada. Ela é uma totalidade dinâmica, feita de múltiplas relações, em movimento, muitas vezes contraditória. Nós é que a dividimos em disciplinas, subáreas e subcampos, por conveniência de organização. A totalidade, por conta própria, é una e diversa ao mesmo tempo.
Trabalho, ciência, tecnologia e cultura: as quatro dimensões indissociáveis
Quando levamos isso para a educação profissional e tecnológica, aparecem quatro dimensões da formação: trabalho, ciência, tecnologia e cultura.
E a característica que define essas dimensões é que elas são indissociáveis. Não são domínios separados, com a ciência de um lado, a tecnologia de outro e a cultura mais distante ainda. São expressões integradas de um mesmo processo, que é a produção da existência humana.
Vale um cuidado com a palavra tecnologia aqui, porque ela também é polissêmica. A partir de Álvaro Vieira Pinto (2005), ela assume pelo menos quatro sentidos diferentes, incluindo o de simples sinônimo de técnica e o de ideologização da técnica. O sentido que interessa nesta discussão é o da tecnologia como epistemologia da técnica, aquela que estuda a técnica, que estuda o avanço das forças produtivas.
E a cultura entra como a unidade dessas dimensões formativas. É a prática social que conforma as normas de conduta, os valores éticos e os valores estéticos de uma sociedade, expressando inclusive a organização político-econômica dela.
Por que educação profissional não é treinamento para o mercado
Assumidas as quatro dimensões como indissociáveis, uma conclusão se impõe: reduzir a educação profissional a treinamento para o mercado é uma redução grande demais.
Se eu enxergo a formação apenas como preparação para a empregabilidade, eu desconsidero trabalho, ciência, tecnologia e cultura de uma vez só.
Se não é treinamento para o mercado, então é o quê?
É proporcionar a compreensão das dinâmicas socioprodutivas modernas. É entender como a sociedade funciona, como ela produz, como circula esses produtos, como o conhecimento é produzido. E, a partir dessa compreensão, habilitar as pessoas para o exercício autônomo, crítico e consciente das profissões, sem limitar a formação a essas profissões.
A palavra modernas nessa formulação não é enfeite. A realidade é dinâmica. Uma formação ancorada numa tecnologia de duzentos anos atrás não dá conta da realidade objetiva de hoje.
Trabalho como princípio educativo e pesquisa como princípio pedagógico
Para que a formação humana integral saia do plano da intenção, Marise Ramos aponta dois princípios orientadores.
O primeiro é o trabalho como princípio educativo. Reconhecer o trabalho como princípio educativo é afirmar que o ser humano é produtor da própria realidade e que pode transformar essa realidade.
E aqui cabe o alerta que evita erro em prova: isso não significa aprender fazendo. A banca pode apresentar a alternativa dizendo que o trabalho como princípio educativo defende o aprender fazendo para fixar melhor o conteúdo. Não é isso. Trata-se de compreender que estamos num mundo dinâmico e contraditório, e de perguntar como eu me coloco nesse mundo, como eu o compreendo, para poder agir de forma consciente.
O segundo é a pesquisa como princípio pedagógico. E também aqui não é o que parece. Não se trata da pesquisa acadêmica do mestrado ou do doutorado. Trata-se de algo mais amplo: estar inquieto, estar curioso, recusar receber o conhecimento como um pacote fechado de visão de mundo, com estruturas pré-prontas.
É uma inquietação crítica, que forma sujeitos autônomos, capazes de compreender o mundo, atuar nele e transformá-lo a partir de necessidades coletivas.
Os dois princípios estão interligados. A autonomia necessária para atuar de forma crítica no trabalho é potencializada pela pesquisa, e a pesquisa precisa ser intrínseca ao ensino, orientada a resolver questões teóricas e práticas da vida cotidiana de quem vive do trabalho.
Formação integrada e ensino médio integrado: como o conceito chega ao estudante
A formação integrada visa garantir a adolescentes, jovens e adultos trabalhadores o direito de uma formação completa, que ajude a compreender o mundo e a atuar dignamente como cidadão.
Na prática institucional, isso se traduz numa configuração concreta: o estudante cursa o ensino médio e o curso técnico na mesma instituição, sob a mesma matrícula, com os dois alinhados entre si. O objetivo é superar a dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, incorporando a dimensão intelectual ao trabalho produtivo.
E há um ponto que costuma passar despercebido: formação geral e formação profissional são inseparáveis, e uma fundamenta a outra.
A formação geral desenvolve os conhecimentos para compreender a realidade em suas múltiplas dimensões. É português, matemática, história, química, física, sociologia, filosofia. A formação profissional transforma conhecimento científico em força produtiva, nas técnicas de atuação autônoma.
Português e matemática não são o preâmbulo chato antes da parte que interessa. São a base que dá concretude ao exercício da profissão.
O currículo integrado é o que materializa isso, organizando o conhecimento para que os conceitos sejam apreendidos como sistemas de relações que a realidade apresenta, e não como conteúdos isolados que o aluno guarda em gavetas separadas.
Esse é também o ponto de contato com outro conceito da mesma família, a politecnia, que trata do domínio dos fundamentos científicos das técnicas. Os dois conceitos conversam, mas não são sinônimos, e eu detalhei essa diferença no post Politecnia não é dominar muitas técnicas.
O que é formação humana integral, em uma frase
Formação humana integral é a superação de uma divisão histórica, produzida socialmente, entre quem pensa e quem executa, tratando a formação completa como direito de todo trabalhador.
Para fixar, o que formação humana integral não é:
- não é escola em tempo integral;
- não é somar disciplina técnica com disciplina propedêutica na mesma grade;
- não é treinamento para o mercado ou preparação para a empregabilidade;
- trabalho como princípio educativo não é aprender fazendo.
E o que formação humana integral é:
- superação da fragmentação produzida pela divisão social do trabalho (Ramos, 2014);
- direito de compreender o mundo em sua totalidade e de atuar como cidadão pleno e consciente;
- integração indissociável de trabalho, ciência, tecnologia e cultura;
- organizada por dois princípios: trabalho como princípio educativo e pesquisa como princípio pedagógico;
- materializada no ensino médio integrado e no currículo integrado.
O livro é de 2014, e a disputa não terminou. Reformas e contrarreformas seguem acontecendo, e boa parte do que foi conquistado a partir do Decreto 5.154, de 2004, já sofreu tentativas de diluição. Manter esses conceitos em debate faz parte da luta.
Se você está estudando para o ENA, vale conferir como o capítulo 4 de Marise Ramos aparece na bibliografia oficial do ProfEPT e como ele se articula com os outros textos da prova, que comentei no post A bibliografia do ProfEPT 2027 foi divulgada... e agora?.
E me conta nos comentários: na instituição onde você estuda ou trabalha, a formação integrada acontece de verdade ou existe só no nome do curso?
Referências
BRASIL. Decreto nº 5.154, de 23 de julho de 2004. Regulamenta o § 2º do art. 36 e os arts. 39 a 41 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 jul. 2004.
CIAVATTA, Maria. A formação integrada: a escola e o trabalho como lugares de memória e de identidade. Trabalho Necessário, Niterói, ano 3, n. 3, 2005. Disponível em: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario. Acesso em: 7 set. 2026.
RAMOS, Marise Nogueira. História e política da educação profissional. Curitiba: Instituto Federal do Paraná, 2014. (Coleção Formação Pedagógica, v. 5).
VIEIRA PINTO, Álvaro. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. 2 v.

